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Foto: Wikipedia
NELLY SACHS
ALEMANHA
Nelly Sachs foi uma escritora, poetisa e dramaturga judia alemã cujas experiências resultantes da ascensão do nazismo na Segunda Guerra Mundial na Europa transformaram-na em porta-voz pungente para a tristeza e anseios de seus companheiros judeus. Wikipédia
Nascimento: 10 de dezembro de 1891, Schöneberg, Berlim, Alemanha
Falecimento: 12 de maio de 1970, Estocolmo, Suécia
Prêmios: Prêmio Nobel de Literatura, Prêmio da Paz do Comércio de Livro Alemão
Pais: Georg William Sachs, Margarete Sachs
SACHS, Nellly. Poesias. Tradução de Paulo Quintella. Estudo introdutivo de JOSEPH BENFELD. Ilustrações de Jean-Michel Perche. Rio de Janeiro: Editora Opera Mundi,
1973. 263 p. No. 10 946
Exemplar na biblioteca de Antonio Miranda
CORO DAS SOMBRAS
Nós, sombras, oh, nós sombras!
Sombras de algozes
Agarradas ao pó dos vossos crimes —
Sombras de vítimas
A desenhar o drama do vosso sangue numa parede.
Oh, nós desvalidas borboletas do luto
Presas numa estrela que continua a arder tranquila
Enquanto nós temos de dançar em infernos.
Os nossos titeriteiros já só sabem a morte.
Áurea ama que nos alimentas
Para tal desespero,
Ó Sol, desvia a tua face
Pra também nós nos afundarmos —
Ou deixa que sejamos o espelho dos dedos erguidos
Duma criança exultante
E da leve ventura duma libélula
Sobre o beiral dum poço.
CORO DAS NUVENS
Estamos cheias de suspiros e de olhares
Estamos cheias de risos
E por vezes usamos as vossas caras.
Não estamos longe de vós.
Quem sabe quanto do vosso sangue subiu
E nos tingiu?
Quem sabe quantas lágrimas vós através do nosso pranto
Vertestes? Quanta saudade nos formou!
Artistas do morrer nós somos
Acostumamos-vos de manso à morte.
Ó inexperientes, que nada aprendeis nas noites.
Muitos anjos vos são dados
Mas vós não os vedes.
CORO DAS ÁRVORES
Ó escorraçados todos sobre o mundo!
A nossa língua é mistura de fontes e estrelas
Como a vossa.
Hoje Nós somos as vagantes que se erguem
Nós reconhecemos-vos —
Ó escorraçados sobre o mundo!
Hoje a corça homem pendeu nos nossos ramos
Ontem tingiu o gamo o prado com rosas em volta do nosso
tronco.
O último medo das vossas pegadas apaga-se na nossa paz
Nós somos o grande ponteiro das sombras
Que canto de aves cerca —
Ó escorraçados todos sobre o mundo!
Apontamos pra um mistério
Que começa co´a noite.
CORO DOS CONSOLADORES
Jardineiros nós somos, que ficamos sem flores
Nenhuma erva que cure se pode plantar
De ontem para amanhã.
A salva perdeu a flora nos berços —
O rosmaninho perdeu o perfume em face dos novos
mortos —
Mesmo a losna foi amarga só pra ontem.
As flores do consolo nasceram curtas demais
Não chegam pra o martírio duma lágrima de criança.
Nova semente talvez seja
Criada no coração dum cantor noturno.
Qual de nós pode consolar?
No fundo do barranco
Entre ontem e amanhã
Está o querubim
Mói com as asas os relâmpagos do luto
Mas as suas mãos mantêm separados os penedos
De ontem e amanhã
Como os lábios duma chaga
Que deve ficar aberta
Que ainda não pode sarar.
Os relâmpagos do luto não deixam adormecer
O campo do esquecimento.
Qual de nós pode consolar?
Jardineiros nós somos, que ficamos sem flores
E estamos numa estrela radiosa
E choramos.
*
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Página publicada em janeiro de 2026.
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